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  • Fernando Braune

Ritos de passagem(memórias abertas de Charlotte)

LII Minha resiliência e insistência me levaram ao emprego na Casa de Fados, onde fiquei por quase trinta anos. Minha vida, um fado. Nascido na marginalidade, cantando o cotidiano, fado é, antes de tudo, saudade. Me aferrei a ele, pra suprir a minha.

Nos Miradouros, ao por do sol, vendo o Tejo a correr lá embaixo, eu navegava pelo “Urubu”. O Castelo de São Jorge me unia a Ogum, meu Santo guerreiro. Na Sé, o rosário de orações acalentava meu coração de menina, vestido de chita e laço de fita, no átrio da igrejinha.

Na Alfama construí meu universo. Cerca moura de Lisboa a me proteger. “Chafariz de Dentro” encharcando minha alma de desejos. Suas escadarias e roupas nas janelas, meus varais: cordas que atravessam, conectam e dão sentido à minha sina.

Musa de todos os fados, Alfama nos arrebata e arrepia. Ladeiras a escalar. Pedras a pisar e ultrapassar, que se juntam às minhas. Que não são poucas. Fartas e roucas a gritar, levantar e seguir. Caminhos tortuosos. Labirintos não decifrados.

Cais de partida. Sem porto a chegar!



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