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  • Fernando Braune

Ritos de passagem(memórias abertas de Charlotte)

VI O circo é uma família e, com tal, sujeito a toda sorte de surpresas.

Trapézio é questão de muita concentração, foco, determinação, mas, sobretudo, muita paixão. Paixão desmedida, arrebatada, a se manter em pleno ar, puro salto.

E não foi diferente com o meu trapezista. Madrugada quente, sudoeste atravessando a lona daquela forma, prenúncio de virada de tempo. E ao virar, sem nada encontrar, levantei afoita, medo pairando no ar, de faca amolada, de salto mortal, de vida sem rumo, a me espreitar.

Na fresta, pela nesga da lona rasgada, vi o futuro a me aguardar. No fio de luz do poste da tenda, a sombra me dava o cenário. Passos de samurai me guiaram ao espetáculo já começado.

Hoje tem palhaçada? Tem, sim senhor! Em inusitado número de contorcionismo com o trapezista. No colchão-picadeiro me vi plateia especial. Sem fala, sem riso, performance nua e crua!

Silêncio e uma lágrima ocuparam o meu ser.

Madrugada quente, sudoeste atravessando a lona daquela forma, prenúncio de virada de tempo.




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