Êxodo Urbano

 

O projeto Êxodo/Urbano consiste em uma parábola sobre a relação entre a dinâmica urbana, tensa, angustiante e sacrificante da imensa massa de trabalhadores em seus deslocamentos cotidianos e o livro bíblico do Êxodo. Como trilhos de linha férrea, correm paralelas: a narração bíblica da resistência do povo hebreu no seu movimento durante o êxodo e a tensão da locomoção no transporte urbano na cidade do Rio de Janeiro.

 

A investigação da condição humana contemporânea em um grande centro urbano, atrelada ao plano divino é o viés em torno do qual este projeto pretende caminhar, dando ao texto bíblico uma leitura do nosso momento histórico. Em meio a estações de trem, metrô e rodoviárias, o contato direto com o homem urbano em seu trânsito cotidiano pretende fazer de sua realidade, ecos da conflituosa caminhada deserto afora rumo à “terra prometida”.

 

Sem qualquer engajamento político/religioso, as imagens aqui propõem trabalhar simultaneamente o plano mítico e o plano da realidade, apontando tanto para a condição humana, incutida no povo durante a tenebrosa travessia do deserto, com suas desconfianças naturais de seres humanos frente a tamanho desafio, quanto para a crença espiritual do homem urbano contemporâneo que, em busca de sua sobrevivência, trafega diariamente rumo a seus trabalhos. Assim, o episódio bíblico apresenta-se

aqui não como questão histórica ou religiosa em si, mas como matéria fabular, no intuito de lidar com a ambigüidade inerente ao próprio ser humano, independentemente do seu momento histórico.

 

A mitologia cristã surge, então, como suporte metafórico na tentativa de se penetrar no universo hesitante vivido por uma população urbana que, embora confinada em uma realidade insana, angustiante, sobrevive à sua dura dimensão terrestre rumo à busca de seu alimento básico, acreditando nos desígnios divinos. São a fé e o ateísmo como parte de uma mesma vivência.

 

O êxodo bíblico acaba por encerrar, em seu contexto, dois movimentos: um centrífugo (para fora) e outro centrípeto (para dentro). Por ser “saída”, leva o homem a ser colocado diante do outro, arriscando-se a todos os perigos da convivência com o outro. Essa mesma “saída”, no entanto, será o que  possibilitará o povo hebreu a encontrar a sua própria identidade, a voltar-se a si mesmo na busca de suas características próprias.

 

A tensão centrífugo/centrípeto não é, no entanto, uma questão histórica, não cabe diluição no tempo, é do próprio ser humano, pois que, resistir ao ir e vir do êxodo urbano, vencendo o abatimento da enorme tarefa de sobrevivência diária, de possibilitar a garantia do seu alimento básico, um prato de comida que seja, também pressupõe transformação interna.

Enfrentar os próprios medos não se sucumbindo à tentação de resignar-se faz do “sair”, seja do cativeiro, seja de suas próprias casas, fermento de transformação da angústia em esperança, jorrando a vida em meio a desertos, trilhos ou rodovias, fazendo, desse jeito, a vida recuar a morte.

 

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Urban Exodus

 

The Urban/Exodus project consists of a parable about the relation between the urban dynamics, tense, nerve-racking and sacrificial of the majority of the workers in their daily commuting and the biblical book of the Exodus.  Like the tracks of a railway line,

they run parallel: the biblical story of the Hebrew people’s resistance in their movement during the Exodus and the tension in commuting in the urban transport in the city of Rio de Janeiro.

 

The investigation of the contemporary human condition in a large city center, linked with the celestial plan is the bias around which this project pretends to travel, giving the biblical text an interpretation according to our current historic moment. Among train, subway and bus stations, the direct contact with the urban man in his daily transit proposes to turn his reality into echoes of a conflicting journey across the desert towards the “promised land”.

 

Without any political/religious undercurrent, the images here propose to simultaneously work the mystical plan and the reality plan, pointing both to the human condition, imbued in the people during the terrible desert crossing, with the natural suspicion of humans facing such a challenge, as to the spiritual belief of the contemporary human being who, in his search for survival, travels daily to his work.  Thus, the biblical episode is seen here not as a historic or religious question per se, but as fable material, with the purpose of attempting to deal with the inherent ambiguity of the human being regardless of his historic moment.

 

The Christian myth thus suggests, as metaphoric support to the attempt to penetrate the hesitant universe lived in by an urban population that, while confined in a distressing, insane reality, survives in his hard earthly dimension towards the search for a basic food, believing in the divine designs. It is faith and atheism as part of the same living.

 

The biblical exodus ends by confining two movements in its context: one centrifugal (to the exterior) and another centripetal (to the interior). As this is an “exit”, it places man in front of the other, risking all the dangers of living together. However, this same “exit” is what will enable the Hebrew people to find their own identity, to turn to themselves in search of their own characteristics.

 

The centrifugal/centripetal tension is not, however, a historic question, it does not dilute in time, it is part of the human being since, to resist the coming and going of the urban exodus, in victory over the despair with the enormous struggle for daily survival, the possibility of guaranteeing the basic food, even just one plate of food, also presumes an internal transformation. Facing their own fears, not falling into the temptation to become resigned, makes them “come out”, be it from captivity, be it from their own houses, triggers the transformation of anxiety into hope, making life flow in the middle of deserts, tracks or highways, making, this way, life recede from death.