Eclesiaste

 

Após 6 anos de intensas pesquisas, leituras e filmes assistidos, concluí o livro “O Cinema e a Linguagem Fotográfica”. Ao terminar o ensaio teórico passei a fotografar alguns filmes trabalhados no ensaio.

Aos poucos a pontualidade fotográfica passava a desarticular as narrativas propostas pelos cineastas, construindo a sua própria narrativa. Uma nova leitura se configurava a partir da matriz cinematográfica, onde cada fotograma começava a reconstextualizar as cenas e, juntas novamente, criavam um universo específico, inexistente até então.

 

Durante o processo de alteração das fotos impressas através de lápis pastel, tinta acrílica e superposição de imagens, uma intensa relação entre as imagens se configurou, me levando a perceber que um novo filme surgia em minha frente.

 

O transbordamento barroco das cores pelo tratamento dado às cópias acabou gerando um hiper-realismo simbólico, onde os corpos se desajustavam ao plano da realidade cotidiana. A investigação da condição humana frente ao plano divino passou a permear a atmosfera das imagens, o que me remeteu ao “Eclesiastes 4.10”, passagem do livro bíblico onde são narrados o desajuste e a solidão do homem.

 

A memória do episódio bíblico não surge nas imagens como narrativa histórica, mas como matéria puramente fabular, em uma dimensão metafórica na decomposição do corpo urbano tensionado entre a dimensão terrena e o plano divino.

 

A leitura contemporânea da mitologia cristã me defrontou com a fé e o ateísmo cotidianos. Seria o silêncio de Deus?

 

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Ecclesiaste

 

After 6 years of intense research, reading and watching films, I have finished my work entitled “O Cinema e a Linguagem Fotográfica” [‘Cinema and Photographic Language’].  At the end of the theoretical essay I began to take photographs of some films I had worked on in the essay.

 

Little by little, the photographic punctuality started to unravel the narratives proposed by the film-makers, whereby building its very own narrative. A new reading began to take shape from the cinematographic matrix wherein each photogram started to recontextualize the scenes and, put back together again, created a particular universe that did not exist up to such time.

 

During the process of altering the printed photos with a pastel crayon, acrylic paint and superposition of images, an intense relationship arose between the images, leading me to perceive that a new film formed in my mind.

 

The baroque outpouring of colors by the treatment given to the copies ended up creating a symbolic hyper-realism, where the bodies became out of focus with everyday lives.  The investigation into the human condition in light of the divine plane began to permeate into the atmosphere of the pictures, reminding me of “Ecclesiastes 4.10”, a passage from the Bible which speaks of a man’s solitude.

 

The memory of this Biblical episode does not appear in the pictures as an historical narrative, but rather purely fable-like, in a metaphoricaldimension of the decomposition of the urban body pulled taught between an earthly dimension and a divine plane.

 

A contemporary reading of Christian mythology brought me face to face with quotidian faith and atheism.  Would this be the silence of God?